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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Euforia


Cai neve no cérebro vivo do imaculado - dizem
que este milagres só são possíveis com rosas e
enganos - precisamente no segundo em que a insónia
transmuda os metais diurnos em estrume do coração

Dizem também
que um duende dança na erecção do enforcado - o fulgor
dos sémenes venenosos alastra no brilho dos olhos e
um sussurro de tinta preta aflora os lábios
fere a mão de gelo que se aproxima da boca

O vómito da luz ergue-se
das palavras ditas em surdina

A seguir vem o sono
e o miraculado entra no voo dos cisnes
o dia cansa-se
na brutalidade com que a voz se atira contra as paredes
abrindo fendas
em toda a extensão das veias e dos tendões

Quando desperta com o crepúsculo
o miraculado olha-nos fixamente e sorri
dá-nos uma rosa em forma de estilete - fechamos os olhos
sabendo que este é o maior engano
da eternidade

Al-Berto
Horto de Incêndio

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Esmé - Parte II

por Saki (Hector Hugh Munro)

"Pergunto-me o que andaria uma criança a fazer ali", disse Constance passados instantes. "A apanhar amoras. Obviamente." "Não me agradou o modo como berrava", continuou Constance, "parece que ainda tenho o choro dele nos ouvidos." Não trocei das fantasias mórbidas de Constance; para dizer a verdade, a mesma sensação de ser perseguida por um persistente gemido aflito, tinha-se insinuado nos meus nervos já exaustos. A precisar de companhia, chamei por Esmé, que tinha ficado algures para trás. Com uns quantos saltos enérgicos pôs-se a par de nós, e depois desapareceu à nossa frente. O acompanhamento de gemidos estava explicado. O ciganito ia firmemente, e imagino que dolorosamente, aferrado pelas presas da hiena. "Santo nome de Deus!" gritou Constance, "que raio havemos de fazer? Que vamos fazer?" Estou perfeitamente convencida de que no Juízo Final Constance há-de fazer mais perguntas do que qualquer dos Serafins jurados. "Não podemos fazer nada?", insistia ela lacrimejante, enquanto Esmé trotava ligeira à frente dos nossos cavalos cansados. Pelo meu lado fazia tudo o que me ocorria no momento. Vociferava, ralhava, adulava, em inglês, francês e em linguagem de couteiro; fazia gestos inúteis no ar com a minha chibata esfiapada; atirei ao animal a caixa das sanduíches; realmente, não sei que mais poderia ter feito. E lá continuámos a arrastar-nos no crepúsculo que se adensava, com a silhueta desengonçada arrastando-se à nossa frente, e a toada de uma música lúgubre pairando nos ouvidos. Subitamente Esmé mergulhou numas moitas espessas ao lado do caminho, onde não a podíamos seguir; o gemido cresceu para um guincho e depois calou-se completamente. Passo sempre depressa esta parte da história, porque realmente é bastante horrível. Quando o bicho se juntou de novo a nós, depois de uma ausência de alguns minutos, havia nele um ar de compreensão resignada, como se soubesse que tinha feito uma coisa que desaprovávamos, mas que sentia como perfeitamente justificável. "Como pode permitir que essa fera esfaimada trote a seu lado?", perguntou Constance. Parecia-se mais do que nunca com uma beterraba albina. "Em primeiro lugar, não posso impedi-lo", disse eu. "E em segundo lugar, pode ser muitas coisas, mas esfaimada duvido que seja neste momento." Constance estremeceu. "Acha que o pobrezinho sofreu muito?", veio mais uma das perguntas desnecessárias dela. "Tudo indica que sim", disse eu. "Por outro lado, é certo que pode ter estado a chorar por pura birra. As crianças às vezes são assim." Era quase noite cerrada quando de repente emergimos em plena estrada. O clarão de uns faróis e o chiar de um motor passaram por nós simultaneamente a uma proximidade inquietante. Um baque e o som agudo de um guincho seguiram-se um segundo depois. O carro parou, e quando dirigi a montada para o local deparei com um homem novo curvado sobre uma massa escura imóvel estendida na berma. "Matou a minha Esmé", exclamei azeda. "Lamento imenso", disse o jovem. "Sou criador de cães, e compreendo como se deve sentir. Farei o que puder para a compensar." "Faz favor de a enterrar imediatamente", disse eu. Acho que tenho o direito de lhe pedir isso." "Traz a pá, William", ordenou ao chauffeur. Via-se que funerais improvisados nas bermas das estradas eram contingências que estavam previstas. Levou algum tempo a cavar uma campa suficientemente grande. "Sim senhor, um sujeito respeitável", disse o cavalheiro, ao mesmo tempo que o cadáver era rolado para a vala. "Dá a impressão que devia ser um animal de bastante valor." "Ficou em segundo lugar, em Birmingham, na categoria de cachorros o ano passado", disse eu com desembaraço. Constance fungou ruidosamente. "Não chore, querida", disse eu numa voz entrecortada. "Foi tudo rapidíssimo. Não deve ter sofrido muito." "Por favor", disse o jovem num tom sentido, "tem de me deixar fazer alguma coisa como forma de a compensar." Recusei delicadamente, mas como ele insistia acabei por lhe dar a minha morada. Naturalmente, não dissemos palavra sobre os episódios do princípio da noite. Lord Pabham nunca anunciou o desaparecimento da sua hiena; há um ano ou dois um animal estritamente frutívoro saíra do parque dele e vira-se obrigado a pagar indemnizações em onze casos de acidentes com ovelhas e praticamente repovoara as capoeiras dos vizinhos; por isso, uma hiena à solta era capaz de equivaler a qualquer coisa à escala de um subsídio do Governo. Os ciganos mostraram-se igualmente discretos quanto ao desaparecimento do filhote; não me parece que nos grandes acampamentos eles saibam, mais filho menos filho, quantos têm ao certo. A Baronesa fez uma pausa com ar pensativo, e depois continuou: Mas a aventura teve uma sequela. Recebi pelo correio um pequeno alfinete de diamantes amoroso, com o nome de Esmé gravado num raminho de alecrim. Por acaso, também, perdi a amizade de Constance Broddle. Está a ver, quando vendi o alfinete recusei-me com toda a razão a dar-lhe qualquer parte do lucro. Fiz notar que a parte Esmé do caso tinha sido inventada por mim, e que a parte hiena pertencia a Lord Pabham, se realmente a hiena era a dele, coisa de que, evidentemente, não tenho nenhuma prova.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Esmé - Parte I

por Saki (Hector Hugh Monroe)

-Todas as histórias de caça são iguais - disse Clovis. - E todas as histórias de corridas de cavalos também são iguais, e todas as. - A minha história de caça não se parece em nada com qualquer outra que tenha ouvido - disse a Baronesa. - Passou-se já há bastante tempo, tinha eu vinte e três anos. Nessa altura não estava separada do meu marido; está a ver, nenhum de nós se podia dar ao luxo de pagar ao outro uma pensão. Digam o que disserem os provérbios, são mais os lares que a pobreza mantém unidos do que aqueles que destrói. Mas caçávamos sempre com matilhas diferentes. Nada disto tem a ver com a história. - Ainda não chegámos ao ponto da concentração. Suponho que houve uma concentração dos caçadores - disse Clovis. - Claro que houve uma concentração - disse a Baronesa. - Estava lá toda a gente do costume, e em particular Constance Broddle. Constance é uma daquelas raparigaças de boas cores que combinam às mil maravilhas com um cenário de Outono ou com as decorações de Natal na igreja. "Pressinto que está para acontecer alguma coisa horrível", disse-me ela, "Estou pálida?" Estava tão pálida como uma beterraba que tivesse recebido más notícias de repente. "Está mais bonita do que o normal", disse eu, "mas isso para si é tão fácil." Antes de ela ter atingido o exacto alcance do comentário, já começara a função; os cães tinham descoberto uma raposa escondida no meio de umas giestas. - Eu já sabia - disse Clovis. - Em todas as histórias de caça à raposa que ouvi havia sempre uma raposa e moitas de giesta. - Constance e eu tínhamos belas montadas - continuou a Baronesa serenamente - e não tivemos dificuldade em nos mantermos na primeira leva, embora fosse uma corrida bastante puxada. Mas lá para o fim devemos ter seguido um caminho um pouco independente, porque nos perdemos dos cães, e vimo-nos a andar à toa aos tropeções a milhas de qualquer sítio. Era uma coisa exasperante, e a minha boa disposição começava a ceder aos poucos, quando ao abrir caminho por uma sebe complacente deparámos com o alegre espectáculo dos cães em grande berraria num valado mais abaixo. "Lá vão eles - gritou Constance, e acrescentou num sobressalto: - Mas que diabo de caça será aquela?" Não era, de certeza, nenhuma raposa deste mundo. Tinha o dobro do tamanho, tinha uma cabeça curta e feia, e um pescoço grosso enorme. "É uma hiena - gritei. - Deve ter fugido do Parque de Lord Pabham." Nesse momento o bicho perseguido virou-se e enfrentou os perseguidores, e os cães (eram só uns seis pares) ficaram em semicírculo e com um ar aparvalhado. Era evidente que se tinham separado do resto da matilha na pista daquele cheiro estranho, e não estavam muito certos de como lidar com a presa agora que a tinham apanhado. A hiena saudou a nossa chegada com inequívoco alívio e manifestações de amizade. Provavelmente estava habituada a uma invariável amabilidade por parte dos humanos, ao passo que a primeira experiência com cães lhe deixara uma má impressão. Os cães pareciam mais embaraçados do que nunca enquanto a presa exibia a sua súbita intimidade connosco, e o ténue ressoar de uma trompa ao longe foi tomado como o desejado sinal para uma partida discreta. Constance, eu e a hiena ficámos sós no crepúsculo que descia. "Que vamos fazer?", perguntou Constance. "Não há como você para fazer perguntas", disse eu. "Bem, não podemos ficar aqui a noite toda com uma hiena", replicou ela. "Não sei qual é a sua ideia de conforto," disse eu, "mas não tenciono passar aqui a noite toda, mesmo sem uma hiena. Pode não ser um lar feliz, o meu, mas pelo menos tem água quente e fria, e serviço doméstico, e outras comodidades que não encontraríamos aqui. O melhor que temos a fazer é seguir para aquele renque de árvores à direita; tenho a impressão de que a estrada de Crowley fica logo a seguir." Trotámos devagar seguindo o trilho apagado de uma carroça, com o bicho seguindo alegremente atrás de nós. "Que raio havemos de fazer com a hiena", veio a pergunta inevitável. "Que é que se costuma fazer com as hienas?", perguntei mal-humorada. "Nunca tive nada a ver com nenhuma até agora", disse Constance. "Bem, eu também não. Se ao menos soubéssemos de que sexo é podíamos pôr-lhe um nome. Talvez lhe pudéssemos chamar Esmé. Dá para as duas hipóteses. Ainda havia luz suficiente para distinguirmos as coisas à beira do caminho, e a nossa atenção entorpecida teve um sobressalto de alerta quando deparámos com um miúdo cigano seminu que andava a apanhar amoras numas moitas rasteiras. A súbita aparição de duas amazonas e uma hiena puseram-no em fuga aos berros, mas seja como for dificilmente poderíamos obter qualquer informação geográfica útil de tal fonte; mas havia uma probabilidade de virmos a encontrar um acampamento de ciganos pelo caminho. Esperançadas, seguimos caminho, mas sem que nada acontecesse por mais quilómetro e meio uma milha ou coisa assim.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson

Alex Gibney, que ganhou este ano o óscar para melhor documentário com Taxi to the Dark Side (um olhar sobre a política Bush no Afganistão, Iraque e Baía de Guantanamo, com especial incidência num taxista afegão que foi torturado e assassinado em 2002), prepara-se para lançar já em Dezembro, Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson. Como dá para preceber é mais um documentário, desta feita biográfico, sobre o jornalista mais marado dos States, com clips nunca antes vistos ou ouvidos, vídeos caseiros, cassetes áudio e manuscritos que ficaram por publicar, sobre o pai do jornalismo Gonzo. Hunter Stockton Thompson tornou-se desde cedo um adolescente problemático. Filho de pais alcoólicos, foi preso por roubo e obrigado a alistar-se na Força Aérea onde começou a trabalhar como jornalista. Mais tarde estudou escrita na Universidade de Columbia e teve uma série de empregos donde foi despedido, invariavelmente por insubordinação, numa altura em que o seu estilo de vida se inspirava no da Beat Generation. Tornou-se freelancer, andou pela América do Sul e Central, e atingiu o primeiro grande sucesso em 1965. Passou um ano no seio do famoso grupo de motoqueiros fora-da-lei de San Francisco, os Hell's Angels, e escreveu um livro que retrata o gang até ao osso e que é considerado um clássico do Novo Jornalismo.
Como membro da contra-cultura e da comunidade hippie de San Francisco, a segunda metade dos anos 60 trouxe as drogas (para juntar ao alcoól), nomeadamente o LSD e a mescalina, o que não demorou a originar o extravagante estilo Gonzo. O primeiro artigo foi publicado em 1970 para a revista Scandal's Monthly. Hunter tinha sido contratado para cobrir uma corrida de cavalos que acontecia há mais de 100 anos na sua cidade natal, Louieville. Apanhou uma borracheira de 4 dias, nem chegou a saber quem ganhou a corrida, mas escreveu na mesma o artigo onde criticava acidamente a sociedade sulista dos Estados Unidos, cheio de interferências do autor, sem ojectividade jornalistica e sem se distinguir entre autor e sujeito da narrativa. Estava iniciado o jornalismo Gonzo, sem distinção entre autor e sujeito e entre ficção e não-ficção. Depois começou a trabalhar para a Rolling Stone, tornou-se num dos maiores críticos de Nixon e mais tarde de Bush. Chegou a ser preso por posse de drogas, já nos anos 90, altura em que vivia recluso num sitio fortificado perto de Aspen e deu um tiro de espingarda na cabeça no dia 20 de Fevereiro de 2005. Durante todos estes anos sempre escreveu artigos, ensaios, contos e até romances. Talvez o mais conhecido seja o Fear and Loathing in Las Vegas que já foi adaptado por duas vezes ao cinema. A segunda versão, e melhor, realizada pelo visionário Terry Gilliam tornou-se um filme de culto, com Johnny Depp no papel de Raoul Duke (alter-ego the hunter) acompanhado de Benicio Del Toro, a caminho de Las Vegas com a mala do carro cheia de cocaína, LSD, erva, éter, mescalina e uma grande variedade de ácidos. Outro livro dele, The Rum Diary, também vai ser adaptado ao cinema, e é o seu amigo Depp que anda a tratar disso. De volta a Alex Gibney e ao seu documentário (também é o Depp o narrador), não é o primeiro sobre Thompson, é verdade, mas quem já viu diz que vale bem a pena. Tomem lá com o trailer.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Um Artista da Fome - Parte III

por Franz Kafka

Porque é que tinha que acabar agora que quarenta dias haviam já passado? Era capaz de aguentar muito mais, aguentava infinitamente; porquê acabar no melhor momento, ou antes mesmo de atingir o melhor momento de jejum? Porque é que o privavam da glória de poder continuar a jejuar, de ser não só o maior artista da fome de todos os tempos, que provavelmente já era, mas de se superar a si próprio, até ao inconcebível, dado que não encontrava limites para a sua capacidade de jejum. Porque é que esta gente que dizia tanto o admirar, porque tinham eles tão pouca paciência; se ele era capaz de suportar o prolongamento do jejum, porque não eram eles também capazes de o fazer? Além disso estava cansado, estava confortavelmente sentado na palha e obrigavam-no a levantar-se e a aproximar-se da comida que só de imaginá-la lhe subiam os vómitos que com esforço continha por respeito para com as senhoras. E olhava para cima, olhava para os olhos das senhoras aparentemente amáveis mas na verdade cruéis e abanava a cabeça demasiado pesada para o fraco pescoço que a sustentava. Acontecia então o que sempre acontecia. O empresário aproximava-se, levantava silencioso - a música não permitia qualquer discurso - os braços por trás do artista da fome como se convidasse o céu a observar a sua obra aqui sentada no meio da palha, este mártir lamentável que o artista da fome era de facto mas num sentido completamente diferente; agarrava o artista da fome pela cintura fina e exagerando o cuidado com que o fazia tentava criar a ilusão de que segurava um objecto altamente delicado; e entregava-o - isto depois de o sacudir um pouco sem que o público o notasse, fazendo com que as pernas e o tronco do artista da fome baloiçassem para um lado e para o outro - às senhoras que entretanto tinham ganho uma palidez de defuntas. Nesta altura o artista da fome já a tudo se submetia; deixara cair a cabeça sobre o peito e era como se se tivesse enrolado sobre si próprio e assim se mantivesse inexplicavelmente; o corpo escavado; as pernas, apertadas uma contra a outra ao nível dos joelhos em instinto de conservação, raspavam o chão como se aquele não fosse o chão verdadeiro, como se ainda procurassem o verdadeiro chão; e todo o peso, peso por sinal levíssimo, do seu corpo repousava sobre uma das senhoras que, à procura de ajuda, a respiração ofegante - não fora assim que imaginara o cargo honorário - começava por endireitar o pescoço o mais possível para evitar que pelo menos o seu rosto tocasse no do artista da fome, mas depois, sentindo que a experiência falhava e que a sua colega, mais feliz, em lugar de a ajudar, se limitava a segurar a medo a mão do artista da fome, esse pequeno embrulho de ossos, a senhora rompia em lágrimas que escorriam sob as gargalhadas entusiastas da sala até que um funcionário, já há muito preparado para o efeito, dali a levava. Vinha então a comida que o empresário enfiava na boca do artista da fome adormecido numa espécie de sono que mais parecia um desmaio; e ao mesmo tempo que o alimentava, o empresário falava animadamente esforçando-se por desviar a atenção do público do estado em que o artista da fome se encontrava; pedia-se depois ao público um brinde, pedido que teria sido supostamente sussurrado pelo artista da fome ao ouvido do empresário; a orquestra reforçava tudo isto com uma grande fanfarra, as pessoas dispersavam e ninguém tinha o direito de se considerar descontente com aquilo a que acabara de assistir, ninguém, tirando o artista da fome, sempre e apenas ele.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Um Artista da Fome - Parte II

por Franz Kafka

Esta era aliás uma das várias suspeitas indissociáveis do jejum. Ninguém, por exe
mplo, era capaz de passar todas as noites e todos os dias a vigiar ininterruptamente o artista da fome e, assim sendo, ninguém podia confirmar com os seus próprios olhos se de facto se tinha jejuado ininterruptamente e sem falhas; apenas o artista da fome o podia confirmar, era ele portanto o único espectador capaz de se satisfazer plenamente com o seu jejum. Contudo, e por uma razão diferente, o artista da fome nunca ficava satisfeito; talvez não tivesse emagrecido por causa do jejum - tanto que havia quem, para seu próprio desconsolo, fosse incapaz de assistir ao espectáculo por não suportar tal visão - mas por causa da insatisfação que sentia consigo mesmo. De facto, só ele sabia, e nem os mais aficionados o sabiam, como era fácil jejuar. Era a coisa mais fácil do mundo. Não o escondia, mas ninguém acreditava, acusavam-no de estar a ser modesto ou, a maior parte das vezes, de querer chamar a atenção ou até mesmo de ser um aldrabão para quem jejuar era fácil porque encontrara uma maneira fácil de o fazer, um aldrabão que tinha ainda por cima o descaramento de quase o admitir. A tudo isto tinha que se sujeitar e com o passar dos anos acabara mesmo por se habituar, mas esta insatisfação corroía-o por dentro e jamais depois dum período de jejum - e esta verdade tinha que lhe ser concedida -, jamais deixara a jaula de livre vontade. O empresário fixara o tempo máximo de jejum em quarenta dias, após os quais sempre o proibira de jejuar, mesmo nas grandes metrópoles, e isto por uma boa razão. É que durante quarenta dias, e com uma intensificação progressiva da publicidade, conseguia-se normalmente manter o interesse de uma cidade, mas a partir daí o público recuava e a afluência decaía; é claro que havia pequenas diferenças entre as várias cidades e países mas a regra aplicada era a do limite de quarenta dias. Ao quadragésimo dia era então aberta a porta da jaula decorada com flores, uma multidão entusiasmada enchia o anfiteatro, tocava uma banda militar, dois médicos entravam na jaula para tomar as necessárias medidas ao artista da fome, o resultado era anunciado a toda a sala por um megafone e aproximavam-se duas jovens senhoras, todas felizes por terem sido elas as eleitas, e tentavam conduzir o artista da fome para fora da jaula e descer com ele uns degraus até uma mesa onde o esperava uma refeição cuidadosamente seleccionada. E nesta altura o artista da fome protestava sempre. Ainda apoiava de livre vontade os seus braços esqueléticos nas mãos que as senhoras debruçadas lhe estendiam prestavelmente, mas recusava-se a levantar.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Um Artista da Fome - Parte I

por Franz Kafka

O interesse por artistas
da fome diminuiu muito nas últimas décadas. Se antigamente a organização por conta própria deste tipo de espectáculos trazia o seu lucro, hoje em dia isso seria absolutamente impossível. Os tempos eram outros. Na altura toda a cidade seguia o artista da fome; a cada dia do seu jejum aumentava a afluência; todos queriam ver o artista da fome ao menos uma vez por dia; nos últimos dias inscreviam-se pessoas para poderem ficar sentadas o dia inteiro em frente à pequena jaula; até durante a noite, à luz de archotes que aumentavam o efeito, apareciam visitantes; em dias de sol trazia-se a jaula para o exterior para que o artista da fome fosse mostrado às crianças; se para os adultos o espectáculo não passava de um divertimento no qual participavam porque estava na moda, as crianças, por seu lado, estarrecidas, as bocas abertas, segurando as mãos umas das outras para se sentirem mais seguras, as crianças observavam a palidez do artista da fome, observavam o maillot preto por trás da qual sobressaíam poderosas as suas costelas, observavam-no sentado na palha, visto que rejeitava qualquer cadeira, a acenar de tempos a tempos por cortesia, viam-no responder a perguntas com um sorriso forçado, a esticar o braço para que lhe pudessem sentir a magreza, mas logo se afundando em si próprio, porque todos lhe eram indiferentes, até mesmo o bater, para ele tão importante, do relógio, única mobília da jaula, limitava-se a olhar em frente, de olhos quase fechados e a bebericar aqui e ali de um minúsculo copito de água para humedecer os lábios.


Além dos diferentes espectadores que iam passando, havia também uns guardas permanentes, normalmente e curiosamente talhantes de profissão, que eram escolhidos pelo público e que tinham por função vigiar o artista da fome dia e noite, e sempre três de cada vez, para que ele não pudesse de maneira nenhuma ingerir qualquer alimento. Isto não passava porém de uma formalidade introduzida para satisfação das massas, dado que os verdadeiros aficionados sabiam perfeitamente que durante o período de jejum o artista da fome nunca, sob quaisquer circunstâncias, nem sequer se a tal fosse forçado, comeria a mais pequena migalha; proibia-o a honra da sua arte. Claro que nem todos os guardas eram capazes de o compreender, havia grupos de vigia nocturna que executavam o seu trabalho de forma desleixada, sentavam-se a jogar às cartas num canto propositadamente afastado com o objectivo de conceder ao artista da fome um pouco de descanso que, pensavam eles, seria por ele utilizado para sacar de umas provisões secretas. Este era o tipo de guardas que mais torturava o artista da fome; entristeciam-no; ficava-lhe muito mais difícil jejuar; por vezes suplantava a sua debilidade e cantava durante todo o tempo que durava a vigília, cantava até não mais poder para mostrar às pessoas como eram injustas as suas suspeitas. Mas isto de pouco lhe servia; os guardas ficavam apenas impressionados com a habilidade do artista da fome que era capaz de comer enquanto cantava. Gostava muito mais daqueles guardas que se sentavam bem junto às grades, e que, não satisfeitos com a sombria luz nocturna da sala, o iluminavam com lanternas eléctricas postas à sua disposição pelo empresário. A forte luz não o incomodava, fosse como fosse não dormia e de qualquer das formas era sempre capaz de dormitar sob qualquer iluminação e a qualquer hora, mesmo numa sala sobrelotada e barulhenta. Estava disposto a passar a noite acordado com esses guardas; estava disposto a divertir-se com eles, a contar-lhes histórias da sua vida nómada e a ouvir também as histórias deles, tudo isso para os manter acordados, para lhes poder mostrar que não guardava nada de comestível dentro da gaiola e que jejuava como nenhum deles era capaz. O maior momento de felicidade chegava contudo com a manhã e com um pequeno-almoço cujo custo era suportado pelo próprio artista da fome e ao qual os guardas se atiravam com o apetite de homens saudáveis após uma longa noite de vigília. Havia apesar de tudo quem quisesse ver neste pequeno-almoço uma tentativa corrupta de subornar os guardas, mas isso já era ir longe demais, e quando lhes perguntavam se, em nome da causa, eram capazes de fazer a vigia da noite sem pequeno-almoço, esquivavam-se na resposta, mantendo porém teimosamente as suas suspeitas.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Berlim: Reconstrução Crítica

O Artecapital fala assim:

"BERLIM: Reconstrução Crítica 4-8 NOV 08 PORTO Livro / Ciclo de Cinema / Seminário Internacional de Arquitectura No momento em que se aproximam os 20 anos da Queda do Muro, "BERLIM: Reconstrução Crítica" pretende ser um espaço de debate sobre a história da arquitectura e do urbanismo do século XX, através da reflexão crítica da mítica experiência urbana de Berlim. O sub-título do evento 'Reconstrução Crítica' remete para duas interpretações - uma alusão directa ao método de planeamento urbano Kritischer Rekonstruktion desenvolvido pelo arquitecto Josef Paul Kleihues, nos anos 80, durante a Internationale Bauausstellung – IBA; e uma vontade de reconstruir criticamente Berlim, de regressar à sua história, aos seus dilemas, às suas polémicas, reavaliando e debatendo os seus resultados.
Ciclo de Cinema / Cinema Passos Manuel / 4-7 NOV 08 O Ciclo de Cinema apresenta um conjunto óbvio de quatro filmes incontornáveis, pontos de referência na linha da história de Berlim, que serão analisados e contextualizados por intelectuais apaixonados pelo cinema e pela cidade.
Seminário Internacional de Arquitectura / Auditório de Serralves / 8 NOV 08
Através da leitura crítica do caso urbano de Berlim, um notável painel de conferencistas irá partilhar e debater a sua experiência de confronto com a densa história da cidade, procurando criar um plano de reflexão comum que sirva de base a outras questões. Berlim surge assim como pretexto, como um óculo através do qual poderemos reflectir sobre a cidade contemporânea, focando, por exemplo, a memória e a identidade de uma cidade confrontada com a destruição, como o Ground Zero em Nova Iorque ou o Chiado em Lisboa.
'BERLIM: Reconstrução Crítica' / Edição Circo de Ideias
O Livro apresenta textos de reflexão ou projectos para Berlim da autoria dos participantes presentes no seminário e ciclo de cinema."

O livro vai ser lançado no dia 4 de Novembro, no Passos Manuel, pelas 21h00. Quanto ao ciclo de cinema, as quatro películas são as seguintes:

04/11/08 - 21h30
Berlim, Sinfonia de uma Grande Cidade
Walter Ruttman, 1927
Analisado por Nuno Portas

05/11/08 - 21h30
Germania, Anno Zero
Roberto Rosselini, 1947
analisado por Abílio Hernandez Cardoso

06/11/08 - 21h30
Asas do Desejo
Wim Wenders, 1987
Analisado por Pedro Barreto

07/11/08 - 21h30
Berlin Babylon
Hubertus Siegert, 2001
Analisado por Hubertus Siegert

O seminário do dia 8 de Novembro, estende-se das dez da manhã às oito da noite e encontra-se dividido em três sessões:

Sessão 1 - Memória e Identidade em Berlim, moderado por Jorge Figueira.
Sessão 2 - Projectar em Berlim, moderado por Luís Tavares Pereira
Sessão 3 - Política Urbana em Berlim, moderada por Nuno Grande

A participação no seminário internacional "Berlim: Reconstrução Crítica" confere 3 créditos de formação obrigatória opcional, conforme previsto no Regulamento de Admissão na Ordem dos Arquitectos. Para mais informações consultem o blog. Para se inscreverem carreguem aqui.

sábado, 11 de outubro de 2008

Le Betisier Domenech

Este é o nome do livro da autoria do jornalista Georges Alexandre que foi lançado esta quinta-feira em França e que reúne as melhores frases do seleccionador francês Raymond Domenech, ao longo de 40 anos de carreira. Uma espécie de estupidário desta enjoativa figura do futebol mundial, com toda a certeza a mais odiada em França. Como cada vez que abre a boca piora a fama que tem, não faltam na obra pérolas de humor pretensioso desta arrogante criatura. Perdeu a final do Mundial de 2006 contra Itália, nos Europeus de 2004 e 2008 roçou a humilhação e na presente qualificação para o Mundial de 2010, estreou-se logo com uma derrota por 3-1 frente à Áustria, num grupo que José Couceiro lidera como treinador da Lituânia. Algumas frases bonitas: "Ás vezes olho-me ao espelho e digo que se estivesse à minha frente odiar-me-ia a mim próprio". "Estou em permanente contradição comigo mesmo". "Estou satisfeito com uma coisa: que as leis de excepção e da guilhotina não existam mais. Caso contrário, vejo aqui alguns que teriam um perverso prazer de me enviar para lá. Mas enfim, não matei ninguém. Talvez tivesse sido melhor se tivesse matado... por força das circunstâncias". "Falhei na comunicação. A minha maneira de trabalhar e o meu ar irónico podem dar a sensação que me importo com as pessoas: é falso."Eu não faço erros, faço escolhas". "Hoje compreendi uma coisa: ninguém me compreende". "Não tenho qualquer relação de força com escravos. Ele é um escravo. Eu sou um esclavagista. Eu chicoteio-o e ele faz", esta última como resposta a Mourinho, quando disse que Makelele era um escravo ao serviço da selecção francesa. O livro sai numa altura em que a selecção se desloca até à Roménia, onde tem um jogo importante para qualificação que muitos esperam que seja o último do presente seleccionador.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

LeYa BIS

O grupo Leya lançou uma nova colecção de livros, para ler e reler, com o nome de BIS. Com especial destaque para os autores portugueses traz-nos grandes obras intemporais, a 5,95 euros, com a finalidade de chegar a todo o público, promovendo a cultura e até o coleccionismo, pela dimensão e design dos livros. À venda em livrarias, supermercados, aeroportos e estações de comboio, já se encontram os primeiros 15 títulos que saíram a 15 de Setembro. Os próximos serão lançados em Janeiro, Maio e Setembro de 2009. Aqui está a vídeo promocional da colecção.

Os títulos já editados são:

  • Os Cús de Judas, António Lobo Antunes
  • A Paixão, Almeida Faria
  • A Conjura, José Eduardo Agualusa
  • Terra Sonâmbula, Mia Couto
  • Budapeste, Chico Buarque de Holanda
  • A Salvação de Wang-Fô e Outros Contos Orientais, Marguerite Yourcenar
  • Escuta, Zé Ninguém, Wilhelm Reich
  • Inês de Portugal, João Aguiar
  • Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco
  • Sermões, Padre António Vieira
  • Alma, Manuel Alegre
  • Novos Contos da Montanha, Miguel Torga
  • Bichos, Miguel Torga
  • A Morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstoi
  • Sapho – Costumes de Paris, Alphonse Daudet

Os próximos lançamentos:

  • José Saramago, A Jangada de Pedra
  • João Ubaldo Ribeiro, A Casa dos Budas Ditosos
  • Inês Pedrosa, A Instrução dos Amantes
  • José Cardoso Pires, O Delfim
  • Pepetela, A Montanha da Água Lilás
  • Lídia Jorge, O Cais das Merendas
  • Gabriel García Márquez, Crónica de Uma Morte Anunciada
  • Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal
  • Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela
  • Camilo Castelo Branco, Eusébio Macário
  • Germano de Almeida, O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo
  • José Gomes Ferreira, As Aventuras de João Sem Medo
  • Mário Vargas Llosa, A Festa do Chibo
  • Helena Marques, O Último Cais
  • Vinícius de Moraes, Antologia Poética
  • Trindade Coelho, Os Meus Amores
  • Ondjaki, Os da Minha Rua
  • Boris Vian, Outono em Pequim
  • Alves Redol, Barranco de Cegos
  • Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser
  • Rodrigo Guedes de Carvalho, A Casa Quieta
  • Júlio Verne, O Farol do Fim do Mundo
  • Eça de Queirós, Contos
  • John le Carré, O Fiel Jardineiro
  • Jorge Luís Borges, História Mundial da Infâmia
  • António Aleixo, Este Livro Que Vos Deixo
  • Franz Kafka, O Processo
  • Raul Brandão, Húmus
  • Júlio Diniz, Uma Família Inglesa
  • Natália Correia, A Madona
  • Vladimir Nabokov, Lolita
  • José Rodrigues Miguéis, A Escola do Paraíso
  • Tom Sharpe, A Alternativa Wilt
  • Maria Velho da Costa, Dores
  • Martin Amis, Comboio da Noite
  • Mário Cláudio, Amadeo
  • Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas
  • António Nobre,
  • Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray
  • Álvaro Guerra, Café República
  • Charles Dickens, Cântico de Natal
  • José Manuel Saraiva, Rosa Brava

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Guts - III

O que me deu problemas, eu chamava-lhe Mergulho às Pérolas. Isto quer dizer tocar uma debaixo de água, sentado no fundo da piscina dos meus pais. Com uma grande golfada de ar eu nadava até ao fundo e tirava os meus calções de banho. Sentava-me lá em baixo durante dois, três, quatro minutos.
Só de me masturbar tinha uma capacidade pulmonar enorme. Se tivesse a casa só para mim faria isto a tarde toda. Após finalmente expulsar a minha matéria, o meu esperma, ele ficaria ali a flutuar em pingos leitosos grandes e gordos.
Depois disso havia mais mergulho, para apanhar o esperma todo. Para o apanhar e limpar cada mão cheia numa toalha. É por isso que é chamado Mergulho às Pérolas. Mesmo com o cloro havia a minha irmã para me preocupar. Ou, deus-todo-poderoso, a minha mãe.
Costumava ser o meu maior medo: a minha irmã adolescente e virgem, a pensar que estava só a engordar e depois dar à luz um bebe atrasado com duas cabeças. Ambas as cabeças iguais a mim. Eu, o pai E o tio.
No fim de contas nunca é o que te preocupa que te lixa.
A melhor parte do Mergulho às Pérolas era a entrada do filtro da piscina e a bomba de circulação de água. A melhor parte era ficar nu e sentar-me lá.
Como os franceses diriam: Quem não gosta de ter os seus rabos sugados?
Mesmo assim, num minuto és um miúdo a esgalhar uma no outro nunca mais serás um advogado.
Num minuto, estou sentado no fundo da piscina e o céu está ondulado, azul claro através de dois metros e meio de água acima da minha cabeça. O mundo é silencioso com excepção do bater do coração nos meus ouvidos. Os meus calções de banho com riscas amarelas estão amarrados ao meu pescoço por segurança em caso de que um amigo, um vizinho, quem quer que seja apareça a perguntar porque é que faltei ao treino de futebol. A sucção contínua da entrada de água do filtro da piscina agita-se e eu ajusto o meu cu pálido e escanzelado à volta dessa sensação.
Num minuto, eu tenho ar que chegue e a minha pila na mão. Os meus pais estão a trabalhar e a minha irmã tem ballet. Ninguém é suposto chegar num espaço de horas.
A minha mão leva-me quase até ao fim e eu paro. Nado até cima para voltar a inspirar. Mergulho e acomodo-me no fundo.
Faço isto outra e outra vez.
Deve ser por isto que as miúdas se querem sentar na tua cara. A sucção é como dar uma cagadela que nunca acaba. A minha pila está dura e o meu cu a ser sugado, não preciso de ar. O bater do meu coração nos ouvidos, fico debaixo de água até estrelas brilhantes de luz se formem à volta dos meus olhos. As minhas pernas esticadas, a parte de trás de cada joelho assentes no fundo da piscina. Os meus dedos dos pés estão a ficar azuis, os dedos dos pés e das mãos enrugados de estarem na água há tanto tempo.
E então deixo que aconteça. Os pingos brancos começam a jorrar. As pérolas.
É nesse momento que preciso de algum ar. Mas quando me tento impulsionar usando o fundo da piscina, não consigo. Não consigo por os meus pés debaixo de mim. O meu cu está preso.
Os paramédicos dizem que todos os anos 150 pessoas ficam presas desta forma, sugadas pela bomba de circulação de água. Deixa que o teu cabelo comprido se prenda, ou o teu rabo e vais-te afogar. Todos os anos acontece a montes de pessoas. A maioria na Florida.
As pessoas simplesmente não falam disso. Nem mesmo os franceses falam acerca de TUDO.
Levanto um joelho, aninhando um pé debaixo de mim, fico meio levantado quando sinto um puxão no meu rabo. Metendo o outro pé debaixo de mim impulsiono-me na direcção do topo. Estou a mexer as pernas, não toco no chão mas também não estou a ficar mais perto do ar.
Ainda a pontapear a água, dando grandes braçadas com os dois braços, estou talvez a meio da viagem mas não vou mais longe. O bater do coração dentro da minha cabeça fica mais rápido e soa mais alto.As faíscas brilhantes de luz cruzam os meus olhos, eu olho para trás… mas não faz qualquer sentido. Uma corda grossa, uma espécie de cobra, branco azulada com veias entrelaçadas, surgiu do cano do filtro e agarrou-se ao meu rabo. Algumas das veias estão a verter sangue, sangue vermelho que debaixo de água parece preto e surge de pequenos cortes na superfície da pele pálida da cobra. O sangue desaparece dentro de água e no interior da pele fina branco azulada conseguem-se ver altos de restos de refeições por digerir.
É a única forma em que isto faz sentido. Um monstro marinho horrível, uma serpente marinha, algo que nunca viu a luz do dia, esteve-se a esconder no fundo escuro do filtro da piscina, à espera para me comer.
Então… Eu pontapeio-a toda ela feita de pele fina, elástica, escorregadia e cheia de veias. E parece que mais um pouco deste animal se solta do fundo da piscina. Deve ter mais ou menos o tamanho da minha perna mas mesmo assim está bem apertado no meu rabo. Com outro pontapé fico a um centímetro do ar fresco. Ainda a sentir a cobra apertada no meu rabo, estou um centímetro mais perto da liberdade.
Apertado dentro da cobra podes ver milho e amendoins. Consegues ver uma grande bola laranja brilhante. É o tipo de vitamina em dose cavalar que o meu pai me obriga a tomar para me ajudar a ganhar peso. Para conseguir um bolsa de estudos de futebol. Com ferro e ácidos gordos ómega-3.
É ver essa pastilha que me salva a vida.
Não é uma cobra. É o meu intestino grosso, o meu cólon arrancado de mim. O que os médicos chamam de “protuberante”. São as minhas tripas que foram sugadas para dentro do cano.
Os paramédicos dir-te-ão que a bomba de uma piscina puxa 300 litros de água por minuto. São mais ou menos 40 quilos de pressão. O grande problema é que estamos todos ligados por dentro. O teu rabo é só o fim longínquo da tua boca. Se eu me deixar ir a bomba continua a funcionar e puxa as minhas entranhas até chegar à minha língua. Imagina expulsar um cagalhão com 40 quilos e aí vês como isto consegue mesmo virar-te do avesso.
O que te posso dizer é que as tuas tripas não sentem muitas dores. Não da forma como a vossa pele sente dor. À matéria que digeres os médicos chamam de matéria fecal. Mais acima esta o quimo, bolsinhas de uma porcaria fina com pedaços de milho e amendoins e ervilhas.
Esta sopa de sangue e milho, merda e esperma e amendoins, flutuando à minha volta. Mesmo com as minhas tripas fora do meu rabo, eu agarrando o que ainda resta delas, mesmo aí só penso em voltar a vestir os calções de novo.
Deus me livre de os meus pais me verem a pila.
Uma das minhas mãos está em punho fechado à saída do meu rabo, a minha outra mão agarra nos meus calções de banho de riscas amarelas e tiro-os do meu pescoço. Mas ainda é impossível vesti-los.
Se queres sentir os teus intestinos compra uma caixa de preservativos de pele de carneiro. Tira um do pacote e desenrola-o. Enche-o de manteiga de amendoim. Espalha lubrificante e segura-o debaixo de água. Agora tenta rasgá-lo. Tenta parti-lo ao meio. É demasiado resistente e elástico. É tão viscoso que não o consegues agarrar.
Um preservativo de pele de carneiro, não passa de intestino velho.
Agora consegues ver contra o que estou a lutar.
Largas por um segundo e és estripado.
Nadas até à superfície, para respirar, e és estripado.
Não nadas e afogas-te.
É uma escolha entre morrer neste momento ou daqui a um momento.
O que os meus pais vão encontrar depois do trabalho é este grande feto nu, enrolado em si próprio. Flutuando na água enevoada da sua piscina nas traseiras. Agarrado ao fundo por uma corda grossa de veias e tripas torcidas. O oposto de um miúdo que se enforcou enquanto se masturbava. Este é o bebé que ele trouxeram para casa do hospital há treze anos atrás. Aqui está o miúdo que eles esperavam conseguir uma bolsa de estudos de desporto para tirar um mestrado. Que tomaria conta deles na sua velhice. Aqui estão todos os seus sonhos e esperanças. A flutuar aqui, nu e morto. À sua volta grandes pérolas leitosas de esperma desperdiçado.
Ou isso ou os meus pais encontram-se enrolados numa toalha ensanguentada, caído a meio da piscina e do telefone da cozinha, um pedaço esfarrapado das minhas tripas ainda a sair da perna dos meus calções às riscas amarelas.
O que nem sequer os franceses falam.
Aquele irmão marinheiro mais velho ensinou-nos outra frase fixe.
Uma frase russa. A forma como nós dizemos “ preciso tanto disso como de um olho do cu na cabeça”, os russos dizem “ preciso tanto disso como de dentes no meu olho do cu.”
Mnye etoh nadoh kahk zoobee v zadnetze.
Aquelas historias que ouvimos acerca de animais apanhados numa armadilha e que roem a própria pata para se libertarem, bem, qualquer coiote te dirá que isso é bem melhor do que estar morto.
Porra… mesmo que sejas russo, um dia podes vir a precisar desses dentes.
O que tens de fazer é virar-te. Enganchar o antebraço por detrás do teu joelho e puxar essa perna até à tua cara. Tu mordes e agarras o teu próprio rabo. Ficas sem ar e mastigas através seja do que for para conseguires respirar.
Não é uma coisa que tu queiras dizer a uma rapariga na vossa primeira saída. Não se esperas um beijo de boa noite.
Se eu vos dissesse ao que sabia vocês nunca mais comeriam lulas.
É difícil de dizer o que enojou mais os meus pais: se a forma como me meti em problemas ou a forma como me salvei. Depois do hospital a minha mãe disse, “tu não sabias o que estavas a fazer, querido. Estavas em choque”. E aprendeu a cozinhar ovos escalfados.
Todas aquelas pessoas enojadas ou com pena de mim….
Preciso disso como de dentes no meu olho do cu.
Hoje em dia as pessoas dizem-me sempre que estou magro demais. Pessoas em jantares festivos ficam muito caladas e chateadas quando eu não toco no cozido que cozinharam. Os cozidos matam-me. Presunto assado. Qualquer coisa que passe mais de um par de horas nas minhas entranhas sai ainda comida. Com o feijão verde cozinhado em casa ou pedaços maiores de atum levanto-me e os encontro intocados na sanita.
Depois de terem feito uma remição intestinal radical não digerem a carne por aí além. A maior parte das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu já tenho muita sorte em ter os meus 15 centímetros. Afinal, nunca tive uma bolsa de estudos de desporto. Nunca tirei um mestrado. Ambos os meus amigos, o miúdo da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca engordei um quilo mais do que pesava naquele dia quando tinha 13 anos.
Outro grande problema foi que os meus pais pagaram muito dinheiro pela piscina. No final o meu pai disse ao gajo da limpeza de piscinas que foi um cão a fazer aquilo. O cão da nossa família caiu lá dentro e afogou-se. O corpo foi puxado pelo filtro. Mesmo quando o gajo abriu a caixa do filtro e descobriu um tubo viscoso, um pedaço de intestino escorregadio com uma grande patilha laranja lá dentro, mesmo aí, o meu pai simplesmente disse, “Aquele cão era um maluco do caralho”.
Mesmo da janela do meu quarto, no segundo andar, conseguia ouvir o meu velho a dizer “Não podíamos deixar aquele cão sozinho durante um segundo…”
Nessa altura o período da minha irmã não veio.
Mesmo depois de eles mudarem a água da piscina, depois de venderem a casa e nos termos mudado para outro estado, depois de a minha irmã abortar, mesmo aí os meus pais não mencionaram nada outra vez.
Nunca
É esta a cenoura invisível da minha família.
Agora podes inspirar bem fundo.
É que eu ainda não consegui."

Por Chuck Palahniuk