domingo, 16 de março de 2008

John Hughes - Parte I

O nome pode parecer desconhecido para alguns, mas trata-se do grande impulsionador dos teen movies na década de 1980. Apesar de ser um subgénero que tem, à partida, muito pouca relevância artística, tem, por outro lado, um grande peso na indústria cinematográfica actual. O jovem John Hughes começou por escrever para a revista National Lampoon que mais tarde passou também a produzir comédias para o grande ecrã, e contou com ele como um dos principais argumentistas. Estreou-se com "Class Reunion" (1982), ao qual se seguiu "Mr. Mom" (1983) com Michael Keaton, mas foi o argumento de "Vacation" (1983) a grande rampa de lançamento da sua carreira. Chevy Chase interpretava o papel principal, ele que foi um dos comediantes norte-americanos mais importantes da década de 1980, após se ter tornado incontornável no pequeno ecrã, juntamente com John Belushi, Dan Aykroyd entre outros (Bill Murray estreou-se após ele ter saído), na estreia do excelente "Saturday Night Live" em 1975, programa que ainda se mantém no activo. Com o sucesso de "Vacation", John Hughes escreveu ainda duas sequelas (que não foram as únicas) "European Vacation" (1985) e "Christmas Vacation" (1989), altura em que já se tinha íniciado na realização. Em 1984 surge então "Sixteen Candles", sobre uma rapariga (Molly Ringwald) que faz nesse dia 16 anos, facto esquecido pela família que está mais preocupada com o casamento da irmã. Para além disso, a rapariga está caídinha pelo rapaz mais popular da escola enquanto o maior cromo está apaixonado por ela. Esta tornou-se a história mais repetida nas comédias românticas juvenis e o John Hughes, principalmente a seguir ao seu segundo filme como realizador: "The Breakfast Club" (1985), um dos poucos realizadores a obterem merecido respeito na área dos teen movies. "The Breakfast Club" que em Portugal foi denominado de "O Clube" mostra a relação entre 5 alunos, de diferentes personalidades claramente estereotipadas, que passam o sábado de castigo, na biblioteca da escola, a escrever um trabalho para o director. As relações, entre o rufia, o marrão, o desportista, a rapariga popular e a anti-social, vão melhorando ao longo das 8 horas que se encontram juntos, à medida que dão conta que não são tão diferentes como pensavam. No mesmo ano estreia "Weird Science" (1985) que conta a história de dois adolescentes pouco populares que tentam criar uma bela mulher através do computador e colmatar, assim, a falta de atenção dada pelas colegas.

sábado, 15 de março de 2008

The Raven - Parte III



O CORVO (continuação)

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! -
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, e esta noite e este segredo
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!"
Disse o Corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! -
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida, se no Éden de outra vida,
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o Corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o Corvo, "Nunca mais".

E o Corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda,
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais.
E a minh'alma dessa sombra que no chão há de mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

Fim

Age Before Beauty

“Hoje tenho quarenta anos, a azia ataca-me amiúde e sinto-me bem com este anoraque. Intrigam-me estes jovens adultos que ainda nem usam camisa e já pensam que podem mudar o Mundo! As mudanças nem sempre são necessárias e fazem-me sentir, um sem número de vezes, desajustado. A hipocrisia tem destas coisas, nada que um exercício pré-marital não componha. Ah!... Chacota, desdém e cara séria, tenho trinta anos e muitos calos nas mãos (como sabe bem dizer isto)! Só não entendo tudo o que é diferente de mim... suporto, mas tenho pena por ser invariavelmente pior. Não simpatizo com quem acha melhor pensar mal sobre quem não entende a diferença, por temer a mudança e não ver a dissemelhança entre a desejada e a necessária. Tenho sessenta anos e já não vai mais do que esta sopa. Faço um check-up aos que passaram e dou conta que sou mais cabrão que nunca. Sempre critiquei tudo e todos que não gostava, até o que me era indiferente merecia a devida rejeição. Sempre tentei deixar de parte os idosos e os inválidos, mas agora que me sinto um verdadeiro ancião, sinto-me também puro escárnio e quanto aos insuficientes, têm quase todos mais anos de vida pela frente do que eu... Resta-me descansar em paz, a dizer que não disse o que realmente disse, ou a negar que isso fosse dirigido a este ou àquele, até ao momento do Juízo Final, altura ideal para ser recompensado por todos os meus prazenteiros pecados. A Humanidade é burra e nunca se vai aperceber disso, a melhor prova é esta afirmação.”

quarta-feira, 12 de março de 2008

Terra de Idiotas vol.1

Aqui fica uma pequena compilação subordinada ao título do blog. Começa com Iggy Pop e o seu álbum clássico The Idiot de 1977, passa pelo trovador Bob Dylan, os suecos The Hives e o seu punk moda funk, o arauto do techno atmosférico James Holden e termina com os grandes Radiohead e o seu Idioteque ou Idioteca ou Espaço onde se guardam idiotas ou terra de idiotas.......




Ps: Em vez de ficar como um post, este pequeno leitor pode ser colocado na barra lateral e atualizado frequentemente. Adminstrador contacte para mais pormenores.

Bansky , graffiti e arte urbana





Não me considerando especialista ou conhecedor do mundo das artes, não tenho amigo(a)s artistas pseudo ou não, não faço parte de nenhuma "cena", nem sequer sou convidado ou vou a inaugurações de galerias. Também não percebo assim tão bem o que é uma performance ou uma instalação, e já assiti a algumas, apenas sou daquelas pessoas que diz se gosta ou não. Esta pequena e irrelevante introdução só para que não me rotulassem de pretencioso no primeiro post como convidado de uma terra de idiotas que apesar de não ser a minha (é mais de parolos) sinto bastante afinidade. E ver aqui terra como concepto e não como espaço físico.
Vamos lá ao que interessa. Se há alguém que posso considerar um génio dentro daquilo que conheço na arte contemporânea essa pessoa ou entidade é BANSKY. Digo pessoa pois ninguém conheçe a verdadeira identidade do artista. A principal tela de Bansky é a rua. Bansky é um graffiter, como milhares que andam por aí e que borram as paredes com tintas, umas vezes com talento, a maior parte com merda. Pois a Bansky talento não lhe falta. Movendo-se no terreno do stencil, o que permite reproduções rápidas e técnica reduzida, tem sido figura maior deste tipo de arte urbana, chegando mesmo a ser plagiado de tal icónicas que se tornam as suas imagens.


A base do trabalho é o humor, a ironia e o activismo político, muito anti-sistema, anti-hipocrisia e pró guerrilha, ficou famoso por colocar quadros seus bastante subversivos em museus ingleses (National Gallery p.e.) e esperar quanto tempo demoravam as autoridades a descobrir a fraude. Ultimamente teve uma exposição de sucesso massivo em L.A., as estrelas adoraram-no e parece que a Angelina Jolie comprou quase tudo por um balúrdio e, levou a sua ironia ao muro da vergonha construído entre Israel e a Palestina. Bansky Superstar!
Uma curiosidade, exemplo da esquizofrenia saudável que se vive nos nossos dias, foi o facto de uma das obras mais icónicas de Bansky, dois polícias a beijarem-se numa esquina em Londres, ter sido vandalizada. Até aqui nada de novo, se pensarmos que o graffiti pode ser considerado como uma forma de vandalismo da parede alheia, o próprio governo inglês o considera assim. Ora a curiosida está em que os autores da proeza foram julgados e condenados e a obra declarada de interesse público.

Aqui têm uma galeria com imagens e localização no mapa dos trabalhos de Bansky em Londres.

Sobre o graffiti e o graffitismo deixo aqui o link para a wikipédia, onde podem ler acerca da influência do graffiti em artistas com Jean-Michel Basquiat ou Keith Haring, sobre como o graffiti juntamente com o hip-hop (e eles andam quase sempre juntos) se tem torna na forma de arte mais presente na cultura ocidental ou descobrir novas formas de arte urbana, como o GRL (Graffiti Research Lab) com os graffiti luminosos e Led-Throwies (já ouve um em Lisboa).

Fiquem também com uma série de links para descobrir mais e mais imagens.
links
stencil revolution (A bíblia do género. Fantástica galeria de imagens e manual de iniciação ao stencil)
Urbana (Blog de Arte Urbana Tuga)
Os Gémeos (estes brasucas são geniais)
Alexandre Orion (Mistura de Fotografia com Pintura e Graffiti)

terça-feira, 11 de março de 2008

The Raven - Parte II




O CORVO (continuação)

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nenhum momento,
Mas com ar sereno e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o Corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o Corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento,
Perdido murmurei lento. "Amigos, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais."
Disse o Corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas suas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entorno da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o Corvo, "nunca mais".

sexta-feira, 7 de março de 2008

Quer pouco, terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 5 de março de 2008

A radiação cósmica de fundo

Durante cerca de três centenas de milhar de anos após o big-bang, a temperatura do universo era tão elevada que, cada vez que um átomo se formasse, seria imediatamente ionizado. Nesta altura havia uma mistura, praticamente homogénea, de núcleos leves (Hidrogénio e Hélio), electrões e fotões. Os fotões da radiação, que preenchiam todo o universo, chocavam constantemente com os “electrões livres” (“livres” dado que não estavam ligados aos núcleos atómicos). O universo, nesse período, era então opaco. Qualquer feixe de luz que se movesse nesse universo muito primitivo e super quente seria absorvido depois de percorrer uma curta distância. No entanto, cerca de 380 mil anos após o big-bang, o universo terá expandido e arrefecido a uma temperatura de cerca de 3000K, o que permitiu que os protões capturassem os electrões e formassem átomos neutros, na chamada era da recombinação. Os fotões com menor energia deixaram de ser capazes de arrancar os electrões aos protões. A radiação electromagnética podia agora viajar durante milhões e milhões de quilómetros sem ser absorvida. O universo tornou-se transparente. Hoje, cerca de 13.7 mil milhões de anos depois, esses fotões, “libertados” na época da recombinação, são os resquícios da “bola de fogo inicial” que preenchem todo o cosmos e que constituem a radiação cósmica de fundo. A radiação cósmica de fundo pode ser detectada na região das microondas do espectro electromagnético. Olhando para qualquer zona do céu, o sinal é praticamente idêntico seja qual for a direcção da observação. Esta isotropia sugere que a radiação cósmica de fundo é um “mar de radiação” que preenche uniformemente todo o espaço. Sem nos apercebermos, se sintonizarmos a televisão numa frequência entre dois canais, 1% da estática que vemos corresponde à radiação cósmica de fundo. O espectro da Radiação Cósmica de Fundo segue uma distribuição espectral de Planck para uma temperatura de cerca de 2.7K

domingo, 2 de março de 2008

The Raven - Parte I



O Clássico de Edgar Alan Poe traduzido por Fernando Pessoa em 1924:

O CORVO

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo:
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, de certo me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo
Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,
Isto só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais."

Direita ou Esquerda?

"Entra de rompante e espera por ser chamado. Chamado a fazer o quê? Traduzir textos? Apanhar pielas? Acreditar em almas e demónios? Pisa a estrada de uma vez e reflecte sobre as opções que dispõe. Bem, esta é melhor que aquela porque é parte do que sou, aquela leva-me a fazer aquilo que julgo ter sentido falta, mas a outra… a outra não tem nada a ver com estas duas. Terei ficado para trás à procura de periscas? Talvez seja melhor pensar no errático discernimento da razão e optar por fazer o contrário. A questão é saber quando é que ele está certo ou não. Pensando bem, o termo errático deixa-nos esperança quanto à validade da premissa, em comparação com o erro que é inexoravelmente implacável e não dá sequer espaço a circunlóquios cognitivos. Parece-me no entanto desnecessário este acervo de meditações, uma vez que a essência do erro já o deixa à parte de qualquer leque de opções dúbias que tenha à escolha, a menos que este seja desconhecido e pratique a razão da razão desconexa. Em termos práticos tudo se resolve com putas e vinho verde, mas não me desagrada a ideia de poder tomar decisões sem ambos.”